O silêncio da rua
Junho 22,2008
A rua estava deserta.
De paralelepípedos desgastados e polidos, dividindo a cena com majestosos prédios residenciais, uma iluminação amarelada e algumas árvores pingadas. Aquela rua era monótona e simples.
Noite escura, nevoeiro fino, quase garoa. O silêncio fôra quebrado por um melodioso som, esparso, delicado como uma flauta. Toda a atenção de todos os prédios estava voltada para aquela música. Um homem alto, cabelos grisalhos, bigode e costeletonas, passeava despreocupadamente pelo meio da rua. Sua melodia era perfeitamente assoviada. O timbre e a potência de seu assovio era impressionante: ecoava pelas paredes de concreto, despertando a atenção de todos!
E vinham pessoas às janelas. Aquele homem não sabia, mas havia quebrado a velha e cansada rotina daquela rua. Passos despreocupados. A expressão surpreendente no rosto de cada um que prostrava-se para ver o homem passar era a prova definitiva de que aquele gesto havia transcendido a frígida barreira da morosidade.
Ele caminhou até o final da rua. Entrou na padaria. Todos esperavam nas janelas, ansiosos.
O homem saiu em silêncio. Aquele vácuo infinito torturava a todos.
Ele não assoviou nada. Simplesmente começou a cantarolar um tango argentino. Era passos lentos, despreocupados. Sua voz era enebriante. A potência daquele som ecoava pelas paredes de concreto. Ao chegar perto da esquina, alguém começou a aplaudir. Segundos depois, todos que estavam às janelas batiam palmas. O momento era de arrepiar. O homem, parado na esquina estava assustado com o inusitado fato.
Ele não sabia, mas tinha transformado aquele mágico momento em uma das mais singelas lembranças de uma noite extática daquelas pessoas.
:: Ouvindo “Por una cabeza – Carlos Gardel” ::
O mitológico hindu new wave
Janeiro 17,2008
Era uma vez um príncipe que era chamado de Cherenzig pelo pessoal que era do Tibet, Kuan Yin pela moçada da China e Avalokiteshvara pela galera da Índia, que ainda colocou nele o título de Mahakaruna, que significa O Grande Compassivo, pois ele era um sujeito muito batuta e pagava chicletes pra garotada.
Num certo dia Cherenzig-Kuan Yin-Avalokiteshvara-Mahakaruna entrou numas de começar a projetar braços pra tudo quanto era lado. Começou projetando quatro, depois oito e até que ele aloprou e projetou logo mil deles, pro povo se ligar que ele não era comédia e mandava bem essa coisa de projetar braços.
A história não diz isso, mas ninguém me tira da cabeça de que um sujeito com tantos apelidos bizonhos assim só pode ter arranjado tantos braços pra poder enfiar um dedo no cú de cada dizinfiliz que caçoava dele na escola.
Calma, calma…
Janeiro 16,2008
Não, eu não estou entrando numa maratona de historinhas trash. Este singelo conto foi apenas uma piada interna e tem o intuito de fazer rir uma meia-dúzia de gatos pingados que vão tirar desta fábula um pouco mais do que a história de um babaca que se tornou um corrimento vaginal.
Podem ficar sossegados, cabou, viram? Hehehe…
Mas quem conhece (e gosta) das histórias toscas do tio pode dar dar um sorriso amarelo que o fim do ano trouxe consigo uma porrada de idéias toscas pra enriquecer os “contos da carochinha” aqui do Vida In Vitro.
Afinal, como diz o Jaime, é falando muita merda que se aduba a vida… rs
O homem bobão
Janeiro 11,2008
Era uma vez um homem bem bobão. Ele era tão bobão, mas tão bobão, que nenhuma mulher havia tido coragem de fazer sexo com ele. O homem bem bobão era mais virgem do que o Chico Xavier, e graças a esse infortúnio da virtude, ficava irritado, o que fazia com que ele se dedicasse a futucar e a tratar mal as pessoas, como se o cosmos conspirasse contra si e o mundo fosse responsável por seus insucessos. Tudo o que ele mais desejava, no fundo, era que toda a humanidade se fodesse de verde-e-amarelo, apenas porque ele, o homem bem bobão, não obtinha êxito em estar perto de uma vagina. Ele sonhava em poder sentir a umidade e o aroma do sexo feminino tão perto quanto fosse possível, mas tudo o que ele conseguia era cheirar uma ou outra perereca fedorenta sem querer, quando apanhava algum ônibus lotado.
Ele passava noites a sonhar com o dia em que finalmente conseguiria viver perto de uma bocetinha. Pensava tanto nisso que no dia de seu aniversário de 30 e tantos anos, desejou em pensamento, ao apagar a velinha: na próxima vida reencarnaria nas condições necessárias para viver o mais perto possível de uma bela e formosa vagina.
Naquela mesma noite o homem bem bobão recebeu a visita de um anjo. Ele dizia, entre nuvens e empunhando uma espada de fogo, que o Senhor ouvira seu pedido e, após analisar atentamente sua vida, decidira enviar o soldado celestial para comunicar ao homem bem bobão que este realmente merecia, em virtude de sua conduta imutável, reencarnar tão perto de uma xereca quanto fosse possível.
O homem bem bobão mal teve tempo de esboçar um sorriso e o anjo sumiu de suas vistas, deixando-o atônito e repleto de uma felicidade nunca antes experimentada. Ele finalmente tinha a certeza de que um dia, dentro das esferas da eternidade, estaria, como sempre desejou, pertinho-pertinho de uma vagina.
E não importava como isso aconteceria. Poderia reencarnar em um médico ginecologista, em algum cafetão, algum Dom Juan, algum milionário, algum ator pornô ou até mesmo quem sabe, num momento de extrema bondade, Deus poderia olhar seu sofrimento terreno nesta vida e mandá-lo de volta como um herdeiro legítimo de Larry Flint. Assim, fora toda aquela mulherada, o homem bem bobão também seria podre de rico. Mas nesse caso, o melhor mesmo é que além de tudo ele seria famoso: assim o mundo inteiro, que sempre chacoteou seu azar com o sexo oposto, teria que engoli-lo sem manteiga. O planeta todo saberia que o homem bem bobão agora era o maior comedor da paróquia. Isso aliviava sua dor e lhe dava ânimo para seguir sua vida e encarar de frente o fato de que morreria virgem, sem nunca ter visto uma bocetinha nesta vida.
Então, numa bela manhã de sol, o homem bem bobão, de tanto desejar essa outra vida, decidiu se matar, para acelerar o processo de reencarnação. Passou a mão numa faca de rocambole Pullman e sentou-se na janela de seu apartamento. Olhou pela última vez aquela sala vazia, amaldiçoou cada pessoa da Terra, fechou os olhos, pensou na boceta mais linda que podia e mandou ver na barriga. Com a faca plástica enterrada em sua pança flácida, o homem bem bobão despencou feito uma banana podre por 16 longos andares, até estatelar-se na calçada em frente ao prédio, num baque surdo toado de estrelas.
Uma multidão ajuntou-se ao redor do corpo inerte do homem bem bobão, que permanecia esquálido, tal e qual uma escultura cubista, emoldurado pelos paralelepípedos banhados de vermelho. A imagem sem vida chamava cada vez mais gente, e todo mundo se perguntava porque diabos aquele infame desconhecido chovera de maneira tão bizarra num dia tão lindo. Os pássaros cantavam a morte do homem bem bobão e o rabecão do IML estacionava devagar, ao mesmo tempo em que as atenções se voltavam aos peritos, que agora estudavam uma forma de retirar dali aquele saco humano de ossos quebrados, sem nenhuma conexão entre si.
Enquanto isso, o homem bem bobão renascia sob sua nova forma em algum ponto distante da Índia continental. Finalmente levando sua vida próximo demais de uma vagina, tudo o que o homem bem bobão fazia, novamente, era praguejar e amaldiçoar o universo e as leis da natureza. Todo aquele aroma, todo aquele suor feminino que vertia entre aquelas coxas volumosas, toda aquela umidade e todo aquele desejo latente daquele corpo que o recebia, agora era nada. O homem bem bobão, definitivamente, não estava contente.
Realmente, aquela sua nova vida de Trichomonas vaginalis não era a coisa mais excitante do mundo…